quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SER OU NÃO SER UM CONTADOR DE HISTÓRIAS?



É assim que uma narradora oral vive a se perguntar. E parecendo filosofar, ela continua:

E a tarefa é fácil? 

Para uns sim, para outros não!

Eu digo com todas as letras: Ser contador de histórias não é uma tarefa qualquer, é puro prazer com gostinho de quero mais. Se virar tarefa, o gosto some e na falta dele, aí sim, vira coisa difícil. E coisa difícil não cabe no coração.

Ser contador de histórias é ser alguém que sai pelo mundo, ora centrado, ora fora da casinha, ora levando uma multidão consigo, ora sendo mal entendido, ora mergulhado num branco a dizer coisas na tentativa de voltar ao lugar de partida... O que importa? Tudo isto e muito mais, por exemplo, estar aqui sem ser roubado por outros motivos. Se não o fosse, não estaria aqui a surrar o tempo com os meus dedos a catar milho no meu teclado já um tanto gasto.

É fácil abrir o peito e rasgar a boca até os brincos das orelhas só para falar:

- Sou contador de histórias!!!

Vai dizer que não... Claro que sim... Ou quem sabe, de repente, se não sou algo difícil, agarro-me nas asas da liberdade e saio por este mundão de Deus, que costumamos dizer:

- É o universo do coração e para entrar nele, basta pular de fora para dentro... Caso contrário, nada vai acontecer. E no lugar de um “contador de histórias”, a plateia tem um “papagaiador de estórias”

Eu por exemplo, pela força da paixão por esta arte, desde a era das cavernas, lá do tempo em que nem o "B, A, Ba" eu sabia falar, não consigo passar uma hora do meu dia, presa na minha atual caverna, sem o meu teclado para fazer o que estou fazendo agora, só pra você. Agora, esfregando meus olhos ardentes do sono a bater nas minhas pestanas, preciso render-me a ele.

Amanhã estarei de volta. Boa noite!

Booooooom dia! Acabei de tomar o meu café desta manhã de setembro, à beira da primavera. Dia 18, faltando três dias para a tão esperada estação que, desde a minha meninice, eu repetia: “Ebaaaaaa..... Tá chegando o tempo das flores e dos beija-flores... Ebaaaaaaaaaaaaaa...” 

Os passarinhos já começam uma grande orquestra, lá no fundo do meu minúsculo quintal coberto de uma minifloresta de “chapéu de couro”, onde grandes seresteiros fazem suas moradas. 

Tem o senhor Sabiá sempre a cantarolar, já à 4h da manhã, e à tardinha, no final do dia, lá pelas 18h ele volta à suave cantoria. É uma canção que parece pura saudade, sabe-se lá de quem. Somente ele sabe!

Tem a dona Correca a cantar o seu “reco, reco, reco, reco...” Experimente cantar esta letra para ouvir o passatempo da dona Carroira (como muitos a conhece). Ela tem uma casinha de madeira pendurada na parede, um presente que comprei para ela há mais de 8 anos. Desde então, dona Correca sempre faz um ninho bem fofo e nele põe os seus minúsculos ovinhos. Até parei de contar às vezes que a senhora Chupim chegava de soslaio para por seus ovos entre os ovinhos da dona Correca, que choca seus ovos sem preconceitos. Ao nascer a ninhada, entre ela os adotivos, todos são alimentados, igualmente. É pura lição de vida. Por que não dizer: “Pura lição de amor!”

Você até poderá pensar: “Que bobice, animais não amam..., agem por instinto.”

Eu responderia: “Então, muitos dos nossos semelhantes, se agissem iguais à dona Correca, não jogariam os seus rebentos para fora do ninho..., em latas de lixo ou até na própria lixeira a céu aberto para o senhor Urubú e seus familiares chegar e se fartar até encher a pança. Estou errada?”

Querido leitor, agora vou pegar minha triciclo e pelar na Beira-mar de São José da antiga Terra Firme de Santa Catarina. 

Tenha um Dia de Luz! 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

10 DE JULHO, 17 DE AGOSTO E 4 DE SETEMBRO - FORMAÇÃO CONTINUADA DE CONTADORES DE HISTÓRIAS NA BPSC/FCC

JULHO, AGOSTO E SETEMBRO, COM O GRUPO BOCA DE LEÃO E MEMBROS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CONTADORES DE HISTÓRIAS/ABCH, REFINANDO SUAS PRÁTICAS.

Dia 10 de julho:

Este foi mais um encontro especial. Recebemos mais duas integrante: uma da ABCH e outra da comunidade, uma professora que gosta de narrar histórias para os seus alunos.

Antes de iniciarmos a prática da narrativa, conversamos sobre alguns elementos essenciais ao sucesso da narração oral e do narrador. Um elemento importante é a consciência dos movimentos corporais em sincronia com a auto escuta e a fala verbalizada; atenção e concentração: um conjunto de elementos que fazem falta a muitos contadores de histórias, até mesmo a quem se julga bem preparado. Então demos o passo inicial, numa brincadeira de roda feita para crianças, para sacudir um pouco estas capacidades. É uma uma técnica que consiste levar os contadores, assim como levo as crianças, a dar-se conta de suas reais necessidades, com a brincadeira de roda, mais conhecida por: "Vamos caçar ursinhos?". 
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O grupo iniciou o processo de consciência, não só da corporeidade como de outros elementos essenciais à boa formação daquele contador de histórias que deseja desenvolver um trabalho de qualidade e estar aperfeiçoando a sua práxis.

Com esta brincadeira, o pequeno grupo conseguiu ver o quanto cada um necessita trabalhar o nível de atenção e contração, educação da escuta e do cumprimento de regras - não tão diferente da postura infantil e juvenil. Adultos, professores ou não, todos apresentam necessidades em comum. 

Sendo contadores de histórias (inquilino do palco das histórias), o hábito de refletir e analisar os nossos procedimentos, é um ritual que evita a tensão desnecessária - aquela que mantém o narrador oral em constante vigília enquanto está em cena.

Iniciamos dando as Boas-vindas às duas contadoras de histórias e prosseguindo com a revisão do encontro anterior, em que foi colocado no telão a filmagem de todas as narrações feitas. Ao assistir cada narração, iniciando com Fábia num jogo de improviso, após ler para si, ela daria ao pedaço de história uma continuidade, na elaboração de um conto completo.
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Fábia Barbosa, já contadora de histórias de longa data.
 As filmagem estarão contribuindo com os nossos contadores de histórias, integrantes do curso, fazerem a auto análise de sua práxis em vídeo.
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Maria Sônia, também é contadora de histórias com formações anteriores, mas diz, agora, estar se redescobrindo.
Neste processo de formação continuada, os contadores já estão começando a se entender com a câmera de filmagem. Ao entrar em cena, desde o início do processo de autoanálise, por mais que diga: não consigo retratar o narrador, esse aquele elemento..., tanto o contador inexperiente, quanto o experiente, vai se revelando e surpreendendo-se consigo mesmo ao ver sua atuação na grande tela. Já os mais experientes também vão descobrindo os seus vícios e tiques e os percebem como os causadores de desânimos ao sair de cena, ou então se depara, cara a cara com aquela sensação de que poderia ser melhor por ter sentido que algo insiste em atrapalhar a sua prática, mas ele não consegue descobrir o que é; de repente, diante da grande tela, assistindo os colegas, ao ver o outro, o contador consegue perceber as suas próprias limitações e descobre seu corpo preso, a voz sem graça, os movimentos lentos e costumeiros... após uma sessão de contação de histórias. Então ele ganha a autoconfiança ao ver o próprio crescimento em cena.

É assim que, a partir de cada técnica de libertação e apropriação do saber escrito nos "segredos da oralidade" levados e trabalhos em grupo, neste curso, cada contador ao seu tempo, consegue alcançar um nível importante de domínio da sua corporeidade, dos seus sentimentos e dos seus momentos diante do público.
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 Viviane (vídeo acima), ainda em processo de formação, expressou a sua satisfação em estar tendo a oportunidade de aprender com a sua própria prática e com as das colegas. Na sua autoavaliação, Viviane falou sobre a vantagem de estar no curso como contadora de histórias iniciante, por poder trabalhar as suas dificuldades e corrigir o que percebe desde o início de seu aprendizado, com isso diz que, ao invés de colocar em prática um corpo sem condições, estará levando ao seu público um corpo mais consciente de suas reais necessidades. então fiquei a pensar: - Bom seria de até eu no início de meu aprendizado, tivesse este mesmo pensamento. Assim eu evitaria uma série de transtornos até chegar onde cheguei: no curso de formação de contadores do SESC/Prainha, com Cléo Busatto, considerada minha mestra de formação. Com ela aprendi tudo o que sei e muito do que consigo levar a todos que já passaram por mim e com os quais, não tive medo de compartilhar os meus saberes, socializar as minhas pesquisas e meus estudos.

Dia 17 de Agosto
Estar diante de cada filmagem, foi como estar num grande laboratório em que, a partir de cada narração, fui dando início ao trabalho no refinamento das práticas apresentadas. A partir de então, o grupo foi trabalhando as suas reais necessidades, pensando no aperfeiçoamento de cada colega, onde um está ajudando o outro. Com esta técnicas: "Auto avaliação diante de si mesmo e da imagem do outro", todos terão espaço para conhecer os segredos da narrativa, onde cada qual está saindo da sua zona de conforto. Como Fábia, a narradora do primeiro vídeo, não conseguiu estar presente neste encontros de 17 de agosto e 4 de setembro, o seu vídeo será trabalhado quando ela retornar ao grupo. Fábia está tendo aulas nas quintas-feiras, justo nos dias dos nossos encontros. Mesmo assim, ela tem acompanhado o grupo por meio do grupo no Facebook, e diz estar bem animada com o trabalho, mesmo tendo que fazer uma escolha: ou as aulas do mestrado ou o curso de formação continuada. Depois de passar esta fase de pesquisa do mestrado, Fábia retornará ao grupo. Ela deseja realizar a sua autoanálise. Enquanto isso, o grupo prosseguirá com as avaliações dos vídeos seguintes.

Uma grande revelação analisada é a narradora Idê Bitencourt, que chegou, em 2012, para conhecer a proposta da Oficina Literária Boca de Leão, gostou e ficou para surpreender todos que presenciaram as suas inseguranças ao verbalizar repetidas vezes: 

- Eu não me vejo contando histórias, porque o que sei fazer muito bem é recitar poesias.

E eu que sempre repeti à Idê: "- Se sabe recitar, também aprenderá a narrar lindas histórias." E foi que eu veria, logo. e quando chegou a vez de Idê pegar o "pedacinho de história da caixa de improviso", ela ficou apavorada e insistiu em não participar da prática de improviso. Como o grande grupo insistiu, e eu também, demonstrando-se contraria, porém sem jeito de firmar-se no seu não, Idê pegou o seu pedacinho de história, respirou fundo, leu com atenção e muito tensão e subiu ao pauco para surpreender-se no primeiro dia de autoavaliação.
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Idê, para a sua própria surpresa, foi a única a fazer uso dos segredos da narrativa sem saber o que estava fazendo. Sua história de improviso, elaborada no dia 10 de julho, encantou a todos e mostrou o quanto ela é capaz de ser uma grande narradora oral, além de continuar sendo uma poetiza maravilhosa. Suas criações sempre tem ligação com a sua pré-história: as vivências de sua meninice. Falo assim porque, com o passar do tempo, nosso grande amigo, aprendi a conhecer esta contadora de história bem antes dela começar a saber da grande narradora oral que vive dentro dela à espera da libertação, que começou no dia 17 de agosto de 2014, no singelo auditório da Biblioteca Pública de Santa Catarina, local onde grandes contadoras de histórias estão a se revelar e a refinar as suas práticas vivenciando-as na parede do fundo do palco.

Também fiquei surpresa ao ver Idê de boca aberta diante de si mesma, e, de repente começar a rir do seu jeitinho meigo a, meio que gaguejar dizendo:

- Nossa! quando comecei a me ver, não acreditei... eu nem me dei conta que fosse Eu ali bem na minha frente. Parecia ser outra pessoa e quando vi que era eu, fiquei surpresa... Eu não imaginava que eu sabia contar - e diante de si mesma, Idê. agora prometeu para si mesma, ser uma ótima narradora oral. Tanto que no debate da aula do dia 4 de setembro, ela encantou o grupo com a narração de uma história de sua autoria.

Conhecendo Idê nas entrelinhas das suas práticas, também o seu modo impecável de ser e de estar na arte de fazer literatura escrita e oral, a respeito acima de tudo pelo Ser Humano maravilhoso que Ela é.
Ainda temos a filmagem de Aparecida Facioli, que até então, não muito diferente de Idê, porém um pouco mais corajosa e ousada, ainda não havia compreendido o que eu vinha lhe falando ao longo desses 12 meses que estamos vivendo a arte de contar histórias: "- Cida, você é corajosa, arrojada, porém precisa entender que uma contação de histórias é narração, não uma representação teatral."

Quando Aparecida pegou o seu pedacinho de história e entrou em cena, no jogo de improviso, fez o de sempre e com a filmagem ela conseguiu entender o que estava fazendo. Aparecida até falou durante o debate, sobre o seu desejo de participar do mundo da arte, algo que sempre a acompanhou desde a sua juventude e quando ela, certa ocasião, descobriu que pode escrever, correu atrás de seu sonho hoje realizado; o mesmo aconteceu com o seu ingresso na arte de contar histórias.
 
Seu vídeo pode parecer um tanto impróprio para alguns, mas retrata o que Aparecida fazia antes de entender o que é fazer narração oral - própria dos contadores de histórias, algo não compreendido até então, e sua surpresa ao ver-se no vídeo, lhe abriu o olhar do entendimento. Aparecida também ficou na plateia a olhar-se de boca aberta, quando falou:

- Agora entendi o que você sempre me falou: "Cida, o que você entra em cena, já fazendo,não é narração de história, é pura representação teatral!" Agora sei o que tenho que começar a fazer. e agora sei como é bom a gente se ver de fora para dentro!

Ao assistir seu vídeo, no dia 17 de agosto, não foi possível conter as gargalhadas e também o estranhamento estampado no semblante da própria Aparecida. Veja o que ela fez com o seu pedacinho de história:
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 A tomada de consciência corporal e da oralidade, adquirida pela contadora de histórias aparecida Facioli, deu à ela um novo olhar na busca da narradora que está dentro dela. E sua proposta a partir do momento em que ficou de frente para si mesma, ela verbalizou:

- Agora entendi tudo o que Claudete vem nos falando desde que comecei a contar histórias - repetiu Cida aos risos de alegria - alegria de uma criança contida e que agora começa a fluir sem barreiras.

A partir do dia 17 de agosto, Vó Cida, como é chamada pelas crianças, carinhosamente, vem praticando a narração oral, com o cuidado de não deixar prevalecer a atriz que divide o seu lado artístico com a contadora de histórias.

4 de Setembro: 

Ao ouvir todas as falas de Rita Teixeira, Viviane R. dos Santos, Dora Duarte, Idê Bitencourt, da Maria Sónia e de mais duas novas integrantes, que serão citadas após preencherem as fichas de inscrição e autorização de uso de imagem, fui arrebatada pela emoção de cada uma e mergulhada em cada ideia, vejam como está Idê nas suas práticas:
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Agora, mais que antes, digo a todos os Ventos: Quem sonha, desvenda pensamentos e ultrapassa os fios da memória em busca das suas histórias. Idê é prova disso!

Uma criança que não aprende a sonhar é porque está nas mãos de alguém que nunca sonhou, alguém que nunca acreditou no Coelhinho da Páscoa, no Papai Noel, muito menos em bruxas ou fadas... Provavelmente ninguém o estimulou a sonhar tudo isso. E o campo simbólico dessa criança ficou ao contrário do certo e ao mesmo tempo errado, porque, talvez, alguém um dia lhe disse:

- Menino, nada disso existe... Isso tudo é coisa de gente que não sabe andar de pé no chão... Vai pra internet, vai!!! Hoje é dia de ir às compras e comprar uma montanha de coisas que realmente existem, vamos?

- Mas mãe, a fulana falou que livros são que nem avião... eles levam a gente aonde a gente quer, e eu quero ir na casa do Pequeno Príncipe e falar com a Rosa dele...

- O quê? Hoje vou falar com a psicólogo, não aguento mais te ver falando essas bobices, está ouvindo, seu malcriado? Vê se cresce menino e larga de ser bobo!

E assim a Vida vai seguindo, carregada de mentes brilhantes. Umas nascidas em casas cheias de seres fantásticos, outras em casas sem pensamentos e nem ideias sobre o mundo do Pequeno Príncipe, outras, apesar da distância do imaginário, ainda conseguem conhecer o Pequeno Príncipe e voltar de seu Mundo montado num cavalo alado, bem diferente... E os meninos e ameninas que estão nas mãos dos Fulanos sem infância, terão que romper grande barreiras para entrar no avião do imaginário e viajar livremente.

Eu, por exemplo, pretendo morrer criança bem velhinha e rica de lembranças - todas que estão compondo as minhas histórias. Minha criança viverá para sempre. Hoje e amanhã, dentro e fora de mim... Depois elas sairão pelo mundo de boca em boca, numa viagem sem fim. E muitas Idês surgirão.

Gosto de sentir o mundo da fantasia. Ele me leva para lugares sem fronteiras, assim como fazem os livros e as crianças que conseguem entrar nele, como se estivessem entrando numa nave rumo a lugares inexistentes, de tão longe da tristeza de não se acreditar em mais nada, e de fazer a gente estremecer de alegria. De tão longe da esquisitice dos descrentes, todas as crianças que aprenderam a sonhar, são capazes de voltar a ser criança em qualquer lugar do mundo - a começar pelo seu.

Sou Claudete Da Mata e posso ser Bruxa da Mata, fada, assombração, qualquer Ser... E ao ver a Aparecida pisar no palco, pular para dentro de seu sonho, dou risada e consigo fizer: "- Cida, você é fantástica porque está aqui para aprender sem fronteiras. então começamos a ver o quanto é maravilhoso ver o seu desabrochar para o mundo da fala falada.

Após estas experiências, levantamos as seguintes necessidades a serem trabalhadas em grupo e individualmente, que batizo como "Os 10 mandamentos da prática da oralidade:"

1. Consciência da corporalidade e da afetividade;
2. Desenvolvimento da fala e da voz: tratamento do vocabulário, articulação e refinamento da voz, ritmo, timbre, postação e tipo (voz caricata);
3. Níveis de movimentos corporais: Alto, médio, baixo e rasteiro;
4. Exploração do ambiente geográfico: palco, sala, praça, etc.;
5. Rituais de entrada e saída de cena (ambiente imaginário);
6. Preferências de atuação: caracterização, com figurinos ou sem eles - que tipo?;
7. Interações com a plateia: virtual, gestual, direta ou de improviso;
8. Perigos evidentes numa atuação sem preparação;
9. Importância da leitura dos contos de outros autores: Fidelidade, memorização, autorização, tipo de narração, preparação e reparação dos vícios narrativos;
10. Preparação antes da entrada em cena: planejamento após a escolha ou ter sido escolhido pelo conto, ensaios, autoavaliação, confiança no outro e o exercício da autoconfiança, autoimagem e autonomia...

 E o Curso de Formação Continuada de Contadores de Histórias, continua com o 4° encontro no dia 17 de setembro, a partir das 18h (pontualmente), no auditório da Biblioteca Pública de Santa Catarina - Rua Tenente Silveira, 343, Centro - Florianópolis/SC/BR.

Para todos os públicos interessados: Estudantes de todas as idades (Menores devem estar sempre acompanhados de um responsável), professores, graduandos de diferente áreas, idosos e Você!

Claudete T. da Mata
Ministrante e Coordenadora Geral da Oficina Literária Boca de Leão
E Mentora da Academia Brasileira de Contadores de Histórias - Sede em SC/BR
Apoio: BPSC/FCC



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MEMÓRIA DE UMA CONTADORA DE HISTÓRIA: TERRITÓRIO DA LIBERDADE.




As histórias batem na porta e eu as deixo entrar. É quando elas começam a se escrever dentro de mim. E, quando nos damos bem, seguro nas suas mãos e elas permitem que eu as reinvente. Quando tudo dá certo, sigo em frente na tentativa de torná-las minhas meninas cheias de filhos e filhas.

Histórias são como o tempo. Para muitos representam dinheiro, mas para mim elas representam uma vida a ser vivida de dentro para fora e vice-versa. Por isso, a importãncia de conhecer os segredos das suas narrativas.

Cada história é um visitante que vem sacudir a minha memória, esbugalhar os meus olhos, me fazer gargalhar, me causar estranheza até abrir a minha boca e me deixar estática por algum tempo. Tem histórias que resgatam os meus pensamentos, que transcendem o meu tempo, o tempo do outro, o nosso tempo.

Então, fico a pensar cá com os meus botões: "é assim que as narrativas vão se multiplicam dentro e fora de mim - todas num movimento tão profundo, que as vezes pareço outra pessoa quando estou soltando as histórias que habitam em mim - aquelas que entraram na minha memória e fizeram morada. Muitas vezes me vejo conversando com as personagens e eu as materializo... Mesmo que as vezes muitas delas pareçam compridas de tão grandes e, ao mesmo tempo, podem parecer curtinhas do tamanho de um mosquito, porém, muito rápidas para alguns leitores/ouvintes, de tantas coisas que ela conseguem fazer e provocar. Então vejo que o tempo tão temido para alguns narradores, são tão amigos de outros. Eu prefiro dar sempre aquele tempo ao tempo e deixá-lo fluir naturalmente, dentro e fora de mim. Assim eu não fico presa a ele, nem ele a mim!"

Quando as histórias começam a me visitar, ao apresentar-se muitas vezes tão tímidas, sinto que elas precisam ser ouvidas, sacudidas... Se eu empresto os meus ouvidos, entrego o meu corpo para elas e não me perco nas minhas suas ausências de palavras porque ao ouvi-las, logo consigo mantê-las dentro de mim.

Se as histórias começam a me fazer cócegas, é porque elas precisam ganhar corpo, voz, cor, cheiro, altura, tamanho e movimento... Mil coisas. Caso uma de nós (eu ou a história) não saiba como buscar a sua própria voz, então é chegada a hora de alguém decidir para que a escolha de cada uma possa ganhar vida e gerar mais e mais vidas, porque o caminho é feito de escolhas - nossas e da própria história que nos escolheu. Assim, tanto o narrador quanto as personagens conseguem reverberar nas suas andanças.

Quando conto ou escrevo um fato, preciso me deixar habitar pelas histórias e suas trajetórias, sem esquecer das personagens... Fazer tudo o que é preciso fazer, sem obedecer quem está do lado de fora das histórias e também de mim. Assim eu não me engesso com as interferências alheias ao território da liberdade que me oferece o poder de dar força às histórias, que por sua vez, precisam de seus narradores inteiros: de ouvidos atentos, corpo disponível e alma livre.

O território que me oferece liberdade de me deixar habitar pelas histórias, é aquele que abre a porta para elas. Sei que sou a dona da sua chave, mas não me atrevo a guardá-lo só para mim. Este território precisa receber todos os seus visitantes, e compartilhar com o mundo tudo o que acontece dentro dele. Caso nada isso venha a acontecer, sinto que já não serei mais a mesma. Meus ouvidos podem ter uma parada e meu olhos ser vendados, meu grande músculo vermelho sofrer um ataque e fechar a porta de vez. As histórias são as grandes inquilinas, aquelas que pedem respeito, vida, respiração...

E se, por falta de cuidados, eu perder a chave deste território vermelhão, sinto que já não terei mais vida própria. Tudo em mim não será mais meu, porque corro o risco de ter muitos chacais batendo nessa porta com voz de ovelhas.

Então, jamais poderei dar asas à minha zona de conforto. Posso voar livre pelo meu território de mãos dadas com todas as histórias - aquelas que me escolheram. 

Juntas podemos entrar em qualquer lugar do mundo - lugares à nossa espera. Mesmo que ainda estejamos engatinhando, ganhando vida, crescendo, ser criança ou adulto, mostrar coisas e convidar outras pessoas para conhecer o território da liberdade de todos os contadores de histórias: interventores e inventores do imaginário... Loucos? Não importa!

"Bruxa da Mata, numa manhã de setembro de 2014"





















domingo, 7 de setembro de 2014

DIAS 8 DE AGOSTO E 5 DE SETEMBRO: NOITE DE INVERNO NA BIBLIOTECA PÚBLICA DE SANTA CATARINA/BR 2014


Foram duas noites, com início às 18h, dois momentos em que o Grupo Boca de Leão chegou para dar continuidade aos "estudos e análise da narrativa".


 Iniciamos esse processo em julho, com os integrantes: Viviane R. da Cunha, Evandro J. Duarte, Dora Duarte (acima, de casaco cinza), o menino Gabriel Mariano (acima, com sua mãe Fátima), Rita Teixeira (ao lado da mãe de Gabriel), Idê Bitencourt (acima, sentada ao meu lado, na ponta do sofá), Saray Martins e Aparecida Facioli (as duas na foto abaixo) - Um momento muito especial na vida da Matilha Boca de Leão, em que todos ficaram atentos ao processo inicial da análise da narrativa com a leitura do texto de Cortázar: "Continuidade dos parques".

Este conto inicia com o narrador começando a leitura de um romance, desses que deixam os leitores intrigados, com vontade, ora de desistir (pelo nível de complexidade da narrativa) e ora de ir até o final, e tão logo, desperta algumas angústias que levam o leitor ao encontro do narrador para sentir com ele toas as suas impressões (seus sentimentos de amor, desafeto, vontade de fazer o jamais feito antes, sentir a mesma ira ou o medo...), impulsionado pela necessidade de retornar e ler outras vezes, até que as ideias contidas nas entrelinha comecem a ficar evidentes. Agora, vamos à leitura do conto abaixo.


"Continuidade dos parques", de Julio Cortázar
(Gênero narrativo) 


Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um  acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.

Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance. 



 
Temos aqui uma narrativa de ficção que vai se constituindo a partir da presença de alguns elementos indispensáveis à sua estruturação: narrador, personagens, cenário, tempo e enredo. 
TAREFA A SER ENTREGUE PELO GRUPO LITERÁRIO BOCA DE LEÃO, AO FINAL DESTE PROCESSO DE ANÁLISE DA NARRATIVA

1 - Neste processo de análise, podemos perguntar aos leitores: 

a) Quem narra a história em “Continuidade dos parques”?

b) Quais são as personagens mais envolvidas na trama? 
c) Como as personagens são caracterizadas?

d) A história apresenta dois cenários. Você poderia dizer quais são e o que você consegue descobrir sobre o primeiro cenário, lá no final da história?

e) Qual é o tempo e quais são os seus espaço na trajetória da história?

f) Cite qual acontecimento que desencadeia a ação final da história

2 - Neste conto, há dois fatos sendo narrados: Um é do leitor e outro é o dos amantes. No decorrer de ambos, um reflete o outro. Então podemos dizer que temos aqui uma composição inconsciente, em que as duas histórias vão acontecendo, nos oferecendo pistas contidas nas entrelinhas da leitura feita pelo leitor/personagem, quando os fatos terminam por se entrelaçar. Neste caso, como você explicaria o processo de construção de cenário, das personagens e do enredo na promoção desse efeito - entrelaçamento das duas histórias?

3 - Após a leitura do conto "Continuidade dos parques", podemos afirmar que a primeira pista que o autor nos fornece sobre o caráter fantástico de sua narrativa, é o título da história. Por quê?


4 - A literatura e as demais formas de arte podem levar o ser humano a refletir sobre as angústias e alegrias da própria existência. A leitura do conto nos ajudaria a compreender melhor a realidade? Por quê?

Ao finalizar o debate, ora sobre a forma do fazer literário e ora sobre o conto de Cortázar, demos início à leitura do conto de Calvino, de seu livro "Um general na biblioteca". No decorrer desta leitura, o leitor poderá conhecer um pouco sobre as experiências de vida do autor Ítalo Calvino.

A OVELHA NEGRA
 
Havia um país onde todos eram ladrões.
À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho. Voltava de madrugada, carregado e encontrava a sua casa arrombada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia nem ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não subiam.

Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objetar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água passar embaixo. Voltava para casa, e a encontrava roubada.

Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e, ao mesmo tempo, não roubava ninguém; assim sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto devia ter roubado. O fato é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim iam ficando pobres.

Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume, eles também, de ir de noite até a ponte, para ver a água que passava embaixo. Isso aumentou a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros ficaram pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a  ser ricos. Mas, se paravam de roubar, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e constituíram as prisões.

Dessa forma, já poucos anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais de roubar ou de ser roubado, mas só de ricos ou de pobres; e no entanto todos continuavam a ser pobres.

Honesto só tinha havido aquele sujeito, e morrera logo, de fome.

(CALVINO, Italo. Um general na biblioteca, trad. Rosa Freire D’Aguiar.
SP: Companhia das Letras, 2001, pp 31 e 32 )


Após esta leitura, abriu-se o espaço de análise e debate em grupo, onde cada participante teve sua vez de falar sobre seu ponto de vista e refletir sobre os demais pontos levantados.

Nesse processo de análise, o menino escritor e grande leitor Gabriel Mariano (12 anos), que participa do Grupo Boca de Leão desde 24 de julho de 2012, aos seus 10 anos de idade quando escreveu seu primeiro conto que será lançado em breve, na primeira coletânea de criações literárias do grupo - expressou o que lhe veio à memória, num primeiro momento da leitura: 

- Isso aqui tá parecendo com a forma de enriquecer do Brasil, bem no começo da roubalheira, porque hoje só os honestos morrem de fome. Pra não morrer, tem que ter muita coragem de vencer sem virar ladrão.

O nosso Gabriel é um menino fantástico nas suas colocações. Sempre paramos para ouvi-lo e depois ele nos desperta com o seu prodigioso saber. Ele, de imediato, viu que o texto, numa análise alegórica,apresenta uma mera semelhança com a arte de enriquecer no Brasil, porém, sem saber que o texto foi escrito por um jovem durante a década de 40, quando Ítalo estava preso pelo regime fascista italiano. Além de Gabriel, temos a nossa idosa chiquérrima Aparecida Facioli - Cida (de chapéu), que chegou de mansinho no grupo, sempre às escutas, muito atenta a tudo, com muita sede aprender.  

Ela anota tudo o que ouve, na medida que consegue, porque, entre uma pausa e outra, ela apresenta as suas ideias sempre a complementar a fala de um colega. Depois ela me entrega toas as suas anotações. Ao final solicitou um histórico da vida de Calvino.

Saray Martins, ao lado da Cida, também oferece ótimas contribuições aos debates. Ela é maravilhosa na forma de fazer análise, sempre a fazer uma ponte com as suas experiências de vida e como tudo tem contribuído com o seu aprendizado. Sem a sua presença, o grupo sente falta das suas falas, seus olhares, sua forma de ver e interpretar as narrativas e contextualizar os narradores, em especial os seus autores. então ela dá aquela injeção de vontade, de choque, de muitos elementos que todo grupo precisa para ser sacudido a todo instante.

Após esses dois debates, que mostraram aos participantes, as suas necessidades implícitas e inerentes ao processo da escrita consciente com criatividade, ficou evidente na narrativa a analogia feita por Gabriel Mariano que expressou o seu gosto pela leitura em geral e, em especial ao texto de Calvino, expressou suas ideias sobre a forma de enriquecer dos políticos no Brasil, identificada por ele no texto "A Ovelha Negra", que apresenta uma abordagem onde tudo pode acontecer porque nenhum morador da cidade da Ovelha Negra vive por conta de um costume que aos poucos vai se modificando, enquanto isso uma pessoa honesta, que prefere manter a sua ética, renuncia à fartura e aos regalos da vida vistos por pessoas que lutam todas as noites pelo seu bem comum àqueles que comungam o mesmo costume, como um meio de subsistência único. Por não comungar do mesmo hábito, um homem encontra uma saída nada agradável à maioria, então ele prefere contemplar o rio embaixo da ponte a que fechar os olhos e colocar em terra o seu maior patrimônio - aquele que lhe aponta o seu modo de pensar o mundo e jamais deixar de ser ético. 

Então o homem honesto, de Calvino, abraça as suas convicções não reveladas pelo narrador, apenas sentida pelo leitor, e morre de fome a que aliar-se à classe dominante. Este é um homem forte - aquele que vence a fome do poder antiético e mostra sua grande fortaleza ao morrer com sua alma livre das velhas ideias que escravizam a mente daqueles que só sabem alimentar o corpo.
  
O texto de gênero narrativo, tendo como artigo dominante, o artigo indefinido: Um e uma sucessão de pronomes indefinidos, numeral cardinal. O narrador relata o fato de que um homem honesto que, de repente aparece e se instala na cidade e no início, à noite, ele não saía de sua casa para roubar, preferindo ficar fazendo alguma coisa para ocupar o tempo enquanto os vizinhos saiam para roubar. com a luz acesa, ninguém roubava a sua casa. Porém, alguém ficava sem roubar.

O texto relata uma situação fictícia, onde os personagens envolvidos na trama não são identificados pelo autor, um fato que leva o leitor à oportunidade de fazer uma analogia de acordo com o conhecimento da realidade que o cerca.

Era um lugar onde todos "[...] viviam em paz e sem prejuízo,..."  Tudo nessa cidade não ia ao encontro de uma pessoa que, sem esforços para adequar-se às regras desse sociedade, não reage, não luta contra, mas que prefere viver ao seu próprio modo de ser e acaba por provocar algo inusitado na cidade - a quebra de valores onde a coerência começa a entrar na cidade. Porém, todos continuavam pobres de virtudes pelo fato de prenderem-se aos bens que as traças ainda conseguem roer. Pior ainda, pelos meios ilícitos de aquisição desses bens. Neste processo de análise, todas as respostas são de cunho pessoal. Cada cabeça, uma sentença!


Após conhecer este texto, iniciei uma pesquisa na internet em busca de outras leituras e análises sobre o mesmo e vejam o que encontrei:



SER OU NÃO SER HONESTO:
EIS A QUESTÃO...

Em "Um general na biblioteca", nos lega raccontini curiosíssimos, a exemplo de A Ovelha negra, continho escrito em 1944, quando o autor, devido a sua militância política, filiado que era ao Partido Comunista Italiano, com o qual, inclusive, rompeu em 1956, estava preso pelo regime fascista na Itália... Daí ser o conto um gênero literário das sociedades caóticas, como já afirmou o escritor brasileiro Moacyr Scliar? Para a escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, sim, “porque ele é rápido, de curta duração”. Afinal, ela questiona: “O que existe no caos? Justamente a falta de tempo, de perceber o outro”. Para ela, o romance, por sua vez, é para um tempo de paz e de tranquilidade.

Enfim! Os raccontini de Um general na biblioteca, como eu já mencionei nos dois posts anteriores, foram selecionados e organizados postumamente pela tradutora argentina Esther Calvino, viúva do jornalista, contista, romancista e ensaísta italiano. Já a tradução desta edição para o português é assinada pela brasileira Rosa Freire d’Aguiar, sendo publicada pela editora Companhia de Bolso em 2010, cuja venda, aliás – continuo insistindo que, cada vez mais, não entendo o motivo – é proibida em Portugal... Mas, e A Ovelha negra? Com conotações diversas, a expressão, no caso do continho em questão, se refere, ironicamente, a um dito cidadão que, por prezar por sua honestidade, é a única exceção em um país onde todos são ladrões e no qual todos se locupletam à custa de outrem – qualquer semelhança com a realidade brasileira é, apenas, mera coincidência...
Calvino, que, certa vez, disse: “Entre os meus familiares somente os estudos científicos eram honrados: um tio materno meu era químico, professor universitário, casado com uma química; tive dois tios químicos casados com tias químicas. (...) Eu sou a ovelha negra, o único literato da família”. Isso sem falar que o seu pai era agrônomo e a sua mãe botânica... De qualquer modo, feliz do leitor, que, por Calvino ser um escritor, pode desfrutar dos seus textos sempre tão sagazes, perspicazes, irônicos e repletos de bom humor, em um estilo ágil, cuja estrutura narrativa está isenta de elementos de peso. Muitos dos seus textos, inclusive, são, ainda, parábolas por ele inventadas; outros inspirados em fábulas lidas ou contadas. Eis, portanto, o irônico divertido, como Calvino, que acreditava que o horizonte é a única reta contínua, ficou conhecido em Paris!
 
Do Blog: http://abagagemdonavegante.blogspot.com.br/2010/09/ser-ou-nao-ser-honesto-eis-questao.html
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Rastros de Calvino

Como num jogo involuntário, textos irregulares de Um General na Biblioteca mostram a multiplicidade da obra do italiano


Um autor sempre paga um preço quando seus manuscritos de juventude, ou os guardados na gaveta, ou os apenas confinados a periódicos, são escavados e publicados postumamente em forma de livro, incorporando-se simbolicamente a sua obra. É verdade também que esses escritos, por terem ficado ocultos, ajudam a explicar os que vieram à luz por opção do autor. Essa conta que se faz não é diferente com Ítalo Calvino, um escritor que soube combinar como poucos o realismo da literatura italiana do pós-guerra com os movimentos de vanguarda posteriores. Publicado agora no Brasil, Um General na Biblioteca reúne apólogos, contos, diálogos e esboços de romances escritos entre 1943 e 1984, cujas qualidades literárias, analisadas friamente, são francamente irregulares. Entretanto, se esse custo é inevitável, ele não é o mesmo para todos os autores e, no caso específico, as particularidades são tantas e tão notáveis que, na ponta do lápis, acabam por justificar a publicação.


Porque há mais que isso no caso de Calvino: mais que um estudo a posteriori, Um General na Biblioteca permite, em grau superior, uma nova leitura, quase como se o livro tivesse sido o resultado de um experimento involuntário do escritor que, por felicidade (não há outra palavra), funciona como narrativa. Nos textos, editados segundo uma ordem cronológica, vão-se encontrando, embaralhadas, pistas dos temas, das técnicas e da postura do autor diante da vida e de seu ofício. Nada mais adequado para uma obra que frequentemente é identificada com o universo dos jogos de Borges e que, deliberadamente, nasceu em grande parte da intenção de fazer do ato de escrever um exercício – da metalinguagem de Se um Viajante numa Noite de Inverno ao desafio de interpretar signos em O Castelo dos Destinos Cruzados.


O resultado é que em Um General na Biblioteca, nas suas deficiências e boas surpresas, surge um novo, mas perfeitamente reconhecível, Italo Calvino. No conto O Incêndio da Casa Abominável (publicado em 1973 na Playboy italiana), por exemplo, reconhecemos o exercício daquilo que Umberto Eco chamou de as combinatória na investigação feita por um programador de computador, que permuta possibilidades de acontecimentos com base em uma lista de 12 crimes e quatro personagens mortos em uma casa queimada. Não por acaso, o conto nasceu de um desafio que a IBM lhe fez, o de escrever uma história em uma de suas máquinas, numa época em que não havia processadores de texto da Microsoft e congêneres a auxiliar os leigos em linguagem binária. O tema implícito de decifrar um labirinto de informações, aliás, aparece também em A Memória do Mundo, que reitera a marca enciclopédica e “catalogadora” de uma obra que se debruçou sobre As Cidades Invisíveis de Marco Polo até, de forma mais direta, à obra de não - ficção Por Que Ler os Clássicos.


E é assim que um pouco de tudo de Calvino vai se revelando. Em O Regimento Desaparecido está a marca da trilogia Os Nossos Antepassados, que reúne os romances O Visconde Partido ao Meio, O Cavaleiro Inexistente e O Barão nas Árvores; no bom Amor longe de Casa, os símbolos e a dificuldade de comunicação dos contos de Os Amores Difíceis e do próprio O Castelo dos Destinos Cruzados; em O Chamado da Água, a descrição minuciosa e precisa encontrada em Palomar; nas noções geológicas de A Bomba de Gasolina, a pesquisa para As Cosmicômicas; na casa entre o mar e a colina, o cenário das memórias de infância de O Caminho de San Giovanni (este também publicado postumamente). E, em quase tudo, menos ou mais visível, um pouco da narrativa fabulatória que levou a Giulio Einaudi Editore a encomendar a Calvino a compilação de Fábulas Italianas, em 1954.


Nesse tipo de ficção, não é só o tom moral que conta, mas sobretudo a forma, que às vezes nos desconcerta em sua objetividade, ou “rapidez”, como preferia o autor: “Havia um país em que tudo era proibido” é o primeiro parágrafo de Quem se Contenta; em A Ovelha Negra, a fórmula se repete: “Havia um país em que todos eram ladrões”. As duas histórias são apólogos de sua primeira fase, ainda na juventude, quando o autor considerava o gênero um modo de narrativa menor, típico de um período de crise e opressão que ele associava ao fascismo italiano. Não deixa de ser notável, contudo, que a narrativa em forma de fábula possa ser encontrada em outros autores italianos de épocas distintas – de Dino Buzzati ao já mencionado Umberto Eco – e tenha mesmo reaparecido em formas mais sofisticadas nos escritos posteriores de Calvino, sendo “reabilitada” por ele como valor narrativo em suas Seis Propostas para o Próximo Milênio, na conferência Rapidez.


A irregularidade que se vê em Um General na Biblioteca não advém, portanto, dessa formulação singela, típica dos apólogos, como se poderia imaginar de início. Ao contrário, algum constrangimento acontece em narrativas de maior fôlego, quando o jovem Calvino ainda mostrava uma técnica deficiente no esforço descritivo e/ou de narração subjetiva, como é visível nos contos – esses mais longos – O Rio Seco e Imprestável. Este último, a história boba de um homem que não sabia amarrar os cadarços do sapato, pensada originalmente como romance, que seria chamado de Como Eu não Fui Noé (!). Aqui, compreendemos bem as razões que levaram o autor a abortar o projeto, como muitos outros exemplos que se seguem no livro – narrativas bruscamente interrompidas (O Colar da Rainha), fragmentadas (A Decapitação dos Chefes) ou simplesmente não levadas por algum motivo a público (Henry Ford).


Em compensação, há boas ideias, caso de Como um Voo de Patos e Um Belo Dia de Março, e momentos de pura síntese, ou “rapidez”: “Nessas horas, não consigo ficar em casa. Moro num quarto alugado num quinto andar; debaixo de minha janela dia e noite os bondes balançam na rua estreita, como que passando descarrilados pelo quarto; à noite, lá longe os bondes dão gritos como corujas. A filha do senhorio é uma empregada gorda e histérica: um dia quebrou um prato de ervilhas no corredor e se fechou no quarto gritando”.


Ainda entre o constrangimento e as boas surpresas, há passagens em que se reconhecem mais nitidamente os traços de Calvino como pessoa pública, imagem historicamente associada ao antifascismo e à militância no Partido Comunista Italiano. Em alguns contos, por serem mais esboços de obras, há um tom discursivo maior, elaborado. É o que permite, por exemplo, o autor misturar literatura com o ensaio teórico e engajado (Olhos Inimigos ou o diálogo Montezuma) e até explicar em notas as alegorias políticas, como se vê em A Grande Bonança das Antilhas. Ao lado disso, a mesma literalidade revela também a postura de um intelectual que, no pós-guerra, vai acompanhando as mudanças no mundo ao seu redor: além de computadores, surgem mísseis nucleares, tevê, um personagem hippie.


Como foi dito, parte disso é apresentada de forma um pouco tosca e caricata. Mas essa soma de informações em várias técnicas de escrita não é nada má para quem, já no fim da vida, disse na última conferência de Seis Propostas..., intitulada Multiplicidade: “(...) Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”. É por isso que vale a pena, em Um General na Biblioteca, decepcionar-se um pouco com Calvino. Agosto de 2001 © Almir de Freitas)

 APÓS PESQUISA, LEITURA E ANÁLISE DA NARRATIVA EM GRUPO 

SURGE A TAREFA DO GRUPO BOCA DE LEÃO

Levando em conta todos os tipos textuais identificados, tanto em Cortázar quanto em Calvino e outros autores, podemos encontrar uma gama de textos, que podem ser narrativos, descritivos, argumentativos, explicativos, informativos,especulativos, etc., cada qual com as suas nuances muito bem escritas nas entrelinhas. Os dois textos acima são ricos pela complexidade estrutural, tendo em jogo dois escritores com experiências diferenciadas. Cada qual no seu tempo e no seu momento.

Tanto em Cortázar quanto em Calvino, encontramos uma sequência de ações que se estruturam em torno de uma fato, ou mais, responsável pela mudança do fato. Então:

Após uma segunda leitura do conto "A Ovelha Negra", feita para o aprendizado do processo de estudo da narrativa, com o apoio do Livro de Cândida Vilares Gancho: "Como analisar narrativas", neste dia 5 de setembro, o grupo levou como tarefa para o próximo encontro.

1 - Sabendo que os dois contos se diferem pela maneira peculiar de cada autor, como você classificaria os dois textos acima? Não esqueça de recorrer ao livro de apoio!

Agora,  repita a leitura de Calvino, quantas vezes for preciso, até que tudo fique claro à luz de suas ideias. Depois, sente-se e brinque com as ideias colocando-as no papel para mostrá-las ao grupo no encontro de 18 de setembro. 

2 - No conto de Calvino "A Ovelha Negra" o fato narrado, aquele responsável pela mudança da situação, surge essencialmente para o desenrolar das ações, onde a palavra UM nas linhas abaixo, na sua interpretação textual, expressam o quê:

a)    “Havia UM país onde todos eram ladrões.” _______________________
b)    “… pois UM roubava o outro…” _________________________________
c)    “… no país apareceu UM homem honesto.”________________________
d)    " Honesto só tinha havido aquele sujeito, .." _______________________

2 - Neste texto, acontece uma vasta ocorrência de pronomes indefinidos, como: algum, nada, tudo alguém, ninguém, pouco, todos, um. Procure, do seu jeito, o por que da existência desses pronomes no contexto da narrativa.

3 - Podemos dar o nome de círculo vicioso a uma sucessão de ideias ou fatos contidos no texto, que retornam sempre à ideia ou fato inicial. Procure no texto de Calvino, uma passagem em que a sucessão dos fatos forma um círculo vicioso conduzidos por artigos indefinidos.  Fale um pouco sobre este contexto!


4 - A quem Calvino se refere, do início ao final do texto?

5 - Na sua opinião, qual a maior pobreza e as suas consequências, dessa sociedade narrada por Calvino?
 
5 - Sua leitura gira em torno de uma variedade de fatos que permeiam a vida do autor, de seu narrador, seus personagens e da nossa própria vida. Você concorda? por quê? 

6 - Agora conclua a sua análise falando um pouco sobre o que você sentiu de Calvino e de Cortázar.

Estar com a nossa "matilha de leões", sempre é um reencontro especial. Posso dizer: Um momento de troca de energias quentinhas de um amor que está sendo inovado a cada encontro. Quem não consegue estar nessa troca energética à Luz das Palavras e seus Sentimentos, participa uma única vez; quem não consegue estar sempre presente, ou aconteceu algo que o impediu de alimentar sua aura e seu coração com esta energia, ou então estava com aquela preguiça passageira - aquela que só não consegue prender em casa, numa noite de vento sul, chuva e um surpreendente resfriado: Eu!

MATILHA DO MEU CORAÇÃO, VAMOS CONTINUAR CAPRICHANDO!

Claudete T. da Mata, Florianópolis, SC, 2014.