quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Evento Boca de Leão: 16 e 17 de agosto - Workshop "Contar e Encantar: Pequenos segredos da narrativa"!

Dia 16, antes de iniciar os trabalhos, Cléo trouxe aos presentes um breve contexto teórico para o clareamento do contexto da narrativa no universo educativo, exemplificando com sua história; quando e como aprendeu a ler, um acontecimento um tanto inusitado para muitos, mas que enchendo sua mãe de orgulho, como também, uma equipe pedagógica um tanto surpresa - uma história que me fez recordar de minha infância, quando meu pai comprou a nossa primeira televisão, no início da década de 60, quando a criançada da vizinhança e seus pais vieram à nossa casa para conhecer o aparelho que mudaria a minha história. Nesse tempo, sob o meu olhar, os comerciais eram mais criativos que os de hoje, Eles pareciam me seduzir, revirando minha cabeça do avesso, quando, sem ter ideia do que estava acontecendo, eu lia os anúncios dos comerciais, a ficha técnica das famosas novelas do meu tempo de infância, e da juventude de Yoná Magalhães e seus companheiros dos tempos das novelas "O Direito de Nascer" (TV Tupi, 1964/1965), quando comecei a frequentar a escola, iniciei, não me perguntem por quê, uma fase de alfabetização em que eu me recusava a ler os textos da Cartilha "Caminho Suave". Naquela época, não lembro das professoras contando histórias, mas sim, empurrando, cabeça a dentro, os ensinamentos da época, com suas metodologias autoritárias, do tipo: Escreveu, não leu, o pau comeu! E a palmatória entrava em cena. Eu sempre chegava em casa com as mãos ardendo e os braços cheios de manchas roxas, de tantos beliscões dados pela professora Cecília, que era chamada por todos os alunos que a odiavam, de "Mae do Castelo Branco", aquela que colocava um par de orelhas de burro, na cabeça de quem não lia e não recitava a tabuada. E lá estava eu, sempre a primeira da fila das "orelhas de burro". Já nem me importava mais com as zombarias da turma. O importante era não fazer o que a professora me obrigava todos os dias: "Ler, escrever e contar", e chegar em casa correndo para assistir as novelas da antiga TV Tupi e seu comercial do creme de barbear "Bozzano" e de um "creme contra assaduras de crianças, com uma menina caminhando com uma toalha na mão e um cachorro que ia puxando a toalha atrás da menina. Para encurtar a conversa, com a chegada da novela "Cheique de Agadir" (TV Globo entre 1966 e 1967. Telenovela de Glória Magadan) e, "Eu compro esta mulher" (1966, Baseada no romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas), etc., etc., etc., eu ainda me encontrava na primeira série do antigo primário, aos 8 anos de idade, por conta de todas as minhas resistências em sala de aula. Foi então que comecei a deixar de ir à escola, escondendo-me no meio do mato, até bater o sinal de saída. Meus irmãos entravam nas suas salas e eu sempre dava um jeito de fugir da escola. Resultado, aos 12 anos de idade, quando, graças à professora Lenir, aquela que soube respeitar o meu jeito de ser, fui aprovada para a segunda série. Antes de concluir a nova série, desisti de estudar por dez anos. Na fase adulta, quando ninguém mais podia me obrigar a ler, a escrever e a contar, voltei aos estudos e não parei mais. Foi quando comecei a exercitar, com liberdade, o meu potencial criativo literário. Isso, porque na minha meninice, lá no Bairro do Saco dos Limões, na Ilha das Bruxas, em tenra idade, depois de brincar na beira da praia (atualmente o aterro que dá acesso ao Sul da Ilha), eu chegava em casa cansada, pegava um pedaço de papel de embrulhar pão, e um toquinho de lápis, para escrever tudo o que eu sentia após todas as minhas aventuras imaginárias. Eram rabiscos de uma menina de quatro, cinco, seis anos, que nesse tempo a escola ainda não aceitava como aluna. Após registrar as minhas façanhas, eu mostrava à minha mãe que pegava e rasgava tudo, sem ler um risco qualquer. Mas, eu não desistia. No dia seguinte, começa tudo outra vez, só que os acontecimentos já não eram mais os mesmos. Até desenhar as paisagens e as pessoas, eu fazia os meus rabiscos. Foi assim que, fechada no meu mundo infantil, aprendi a ler e a escrever sem a presença das carrascas professoras dos anos 60. Agora acabo de recordar da notícia da chegada da "revolução" que chegaria até a Ilha das Bruxas... Era de soltar longas gargalhadas, mesmo sem saber do que se tratava. Minha mãe dizia: "Meu Deus, a guerra tá chegando e essa guria não cria jeito"... Ela era a que menos me conhecia, como ainda é. Quando voltei aos estudos, minha mãe dizia: "Vai, tola, vai... Que um burro carregado de livros, também é doutor". E lá ia eu para a faculdade, com os meus livros embaixo do braço.

Acabo de falar um pouco da minha história, porque tive um momento em que voltei ao meu passado, durante a fala da Cléo. Certamente, muitos dos trinta e sete participantes, fizeram o mesmo trajeto que eu, cada qual com sua história, num estalar de dedos, daqui e dali, revirando a memória do avesso. De repente, pensei - Se todos pudessem falar, certamente diriam: "A minha formação enquanto ser humano, depende de todas as leitura de mundo, que fazem de mim, por mim e para mim, ao olhar, ler e sentir minha própria história". ainda bem que, além do olhar do outro, tenho o meu próprio olhar, minhas escolhas, minhas preferências, meus caminhos a serem trilhados com, ou sem, a companhia do outro... Falo assim porque grande parte da minha caminhada, foi feita sem a companhia de alguém.

"Esse movimento de recordar a si mesmo conduz a uma tomada de consciência da própria experiência de vida, seja ela intelectual, emocional, afetiva..." (A arte de contar histórias no século XXI: Tradição e ciberespaço. Busatto, Ed. Vozez, 2006),

De acordo com os ensinamentos de Cléo, a literatura, na vida pessoal de cada "ser", possui uma importância individual, própria de cada olhar, de cada jeito de pensar e sentir o mundo... Segundo suas palavras: “Quando nos sensibilizamos, habitamos poeticamente com o mundo, nesse movimento que a contação proporciona que é fazer o movimento do dar e receber, da troca de experiências”.

Cléo também nos mostrou, por meio de seu breve relato, que os recursos utilizados nas nossas narrativas nos oferecem condições de apropriação dos contos. De acordo com os seus ensinamentos, “[...] precisamos saber conquistar, construir a comunicação de forma sensível, para que chegue ao ouvinte e ele absorva". Um dos segredos da narrativa, é ‘contar com o coração’, há começar pela capacidade de contar a própria história, para em seguida, ganhar a confiança do público. Em especial, "compartilhar as experiências vividas". Assim, ela levou o grande grupo à reflexão e à busca do significado das coisas, elaborando uma contexto lúdico no decorrer de suas narrativas, sempre acompanhadas de um fundo musical, e encenações com movimentos suaves, cantando e encantando a plateia, com sua voz bem afinada.

Tivemos momentos maravilhosos: Um dia de muito aprendizado. Fotografei momentos inesquecíveis, que na manhã seguinte, pensando ter inserido no meu PC, deletei tudo. Eu estava tão radiante com estes ensinamentos que esqueci de lembrar, e o momento tomou conta de mim.


 Neste contínuo, Cléo narrou o conto "A origem do fogo", acompanhado da música "Paiquerê", seguido de outras narrativas paralelas à fundamentação teórica: "Contar e Encantar: Pequenos segredos da narrativa", conteúdo que veio ao encontro das necessidades do grande grupo. Ela mostrou com sua narrativa, uma metodologia de trabalho envolvente. Sua linguagem cativante, prendeu a atenção do público. O diferencial está na sua colocação verbal e nos seus movimentos corporais e exploração espacial capaz de leva a plateia a uma viagem pelo espaço sideral, despertando os fios da memória e nos levando à reflexão sobre o que devemos transmitir quando estamos em cena, narrando para encantar e fazer quem nos ouve, imaginar. Que o corpo, a voz e o olhar em sintonia com o conto, quando bem trabalhados, são 3 chaves indispensáveis na arte de "contar e encantar". Como deletei a filmagem desta narrativa, inseri esta Edição de Cléo, para ilustrar o relato!


E eu, sentada no meu cantinho, continue minhas reflexões numa conversa com os meus botões, e pensei: Preciso fazer diferente, mas me falta coragem, talvez pelo apego às velhas formas de contar... Talvez pelo medo de ousar... Quem sabe, pelo simples fato de não querer abandonar a minha  zona de conforto... Foram tantas reflexões, até chegar a um gama de respostas, que acabei desconstruindo muitos conceitos que formei ao longo de todas as minhas caminhadas na arte de contar histórias, que há tempo eu estava querendo fazer e só neste dia senti coragem de dar o primeiro passo. Assim poderei encontrar o caminho da trasdisciplinaridade. Envolvida num turbilhão de palavras, sinto que já estou me situando neste processo. Ele parece estar me levando para outras dimensões da realidade, como numa passagem do meu lado prático para uma dimensão mais mítica, onde tudo pode acontecer sem a interferência das cabeças tomadas por ideias politicamente corretas. Até parece que ainda não saí da oficina, porque ao lembrar de todos os ensinamentos, começo a viajar pelos fios de minha memória!

Segundo Cléo Busatto, "
contam-se histórias para formar leitores; fazer da diversidade cultural um fato; valorizar as etnias; manter a história viva; sentir-se vivo; encantar e sensibilizar o ouvinte; estimular o imaginário; articular o sensível; tocar o coração; alimentar o espírito; resgatar significados para nossa existência e reativar o sagrado". E que as melhores histórias são aquelas contadas com o coração.



Foi um dia repleto de aprendizado, que ficou na memória de cada participante, incluindo na memória de uma menina de dez anos de existência, armazenando na sua bagagem material e espiritual, juntamente com um grupo de adultos. Ela é a "Mascote do Grupo Literário Boca de Leão", a pequena Luiza Abnara, nossa grande contadora de histórias lá no meio da roda, participando das dinâmicas de grupo.

Depois de concluir o momento teórico no auditório, fomos conduzidos à outra sala, onde vivenciamos momentos práticos, com dinâmicas de grupo, nos envolvendo em técnicas que nos auxiliam no sucesso das nossas narrativas orais, tendo, enquanto narradores, que responder duas perguntas importantes: ""por que contar histórias? E, para quem contar histórias?"

No dia 17, Cléo, utilizando apenas um instrumento: o seu velho lenço branco transparente, encenou o conto "Os Sete Corvos", dos Irmãos Grimm, e narrando ela conduziu os participantes à elaboração do imaginário por meio de uma viagem num carrossel encantado, uma construção do que todos ouviam. Uns de olhos abertos, curiosos e atentos ao que estava acontecendo, outros de olhos fechados, de mãos dadas com a magia que tomou conta de todos. Depois fomos conduzidos para outra sala, onde todos puderam participar de algumas dinâmicas de preparação, que no decorrer das minhas prática, comecei a chamar de aquecimento do corpo - narrador, para "contar e encantar". 

De repente, tivemos mais um momento lindo - Cléo narrando "Os sete corvos", dos Irmãos Grimm, utilizando apenas um elemento mágico: Seu velho lenço branco transparente, com o qual levou todos para uma construção imaginária. Depois de mais ensinamentos, fomos à outra sala, onde vivenciamos e aprendemos outras técnicas... Entre todas que não saíram da minha memórias, a que de vez enquanto, cutuca a minha memória, é: "Roda Cotia, de noite, de dia... debaixo da cama da dona Maria, tem um cachorrinho chamado Totó... Ele pula, ele dança...", lembram?


Contadores e contadoras de histórias, que juntos compartilharam estes dois dias de aprendizado com nossa Mestra Cléo Busatto, o Universo, com suas energias resplandecentes e sua chave dourada, banhou nossas mentes.


 Agora, já não somos mais os mesmos!
video
Estiveram presentes, para alimentar os fios da memória:
  
Elen Padilha, Samantha Buchner Reinaldi, Dora Duarte, Saray Martins, Andrea Dias, Francieli Silva, Franciele Athayde Pires, Aparecida Facioli, Aline Cipriano Aquini, Aline Maciel, Fabiola Bairros, Ana Claudia, Edvaldo Rocha, Fernanda Hermes, Franciani Raymondi, Flavia Vestervig, Gilvana Moura, Gizéli Fuchter, Ivone Balzan, Idê Bitencourt, Karla Nunes, Liliane da Silva, Luiza Abnara, Loridane Orsi, Marlei Sotopietra, Maria Sonia de Sousa, Mary Cunha, Maria do Carmo, Mareli Segat, Neusa Loebach, Natália Rigo, Patrícia Melo, Soraia Felipini, Sonia Simão, Claudete da Mata, Evandro Jair Duarte, Viviane da Cunha.

Ministrante:


Cléo Busatto nasceu em Santa Catarina atriz, amante das palavras, dedicada à formação de profissionais de diversas áreas de atuação, dedicados à arte de contar histórias. Mestre em Literatura/Teoria Literária - UFSC, formada em Pensamento Transdisciplinar pelo Cetrans, Escola do Futuro - USP. Autora de diversas obras literárias, entre elas se destaca "Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa (Ed. Vozes e Ed. Diana, Mexico); Dorminhoco (Ed. Scipione); Contos e encantos dos 4 cantos do mundo (Ed. Leitura); Uma história contada a três vozes e oito capítulos; As histórias do gato Joca, Tom e Ioiô Dora; As histórias do menino de pernas-de-saracura e da menina pequenina (3 volumes, Ed. Lesde); Pedro e o Cruzeiro do Sul (Muriqui Júnior); A arte de contar histórias no século XXI: Tradição e Ciberespaço (Ed. vozes); O fio da história: Por uma educação pela paz (CBL Produções); Práticas da ORALIDADE na sala de aula (Ed. Cortez); autora de multimídias: Contos e encantos dos 4 cantos do mundo (Vol. 1) e Contos e encantos dos 4 cantos do mundo (Vol. 2, Lendas brasileiras), entre outros. É arte-educadora e contadora de histórias. Milhares de pessoas tiveram o privilégio de ouvir e imaginar com as suas narrativas, pelo Brasil e fora dele, participou de vários festivais espalhados pela América Latina (Colômbia, Venezuela, Peru, Argentina, Espanha, entre outros. Pesquisadora da narração oral no meio digital, suas produções de softwares educativos fazem parte de programas de incentivo à leitura, e catálogos internacionais, como: "Bologna Children’s Book Fair. Sempre que pode, vem à sua terra natal, Santa Catarina, em especial, à "Ilha das Bruxas e dos Lobisomens" que ainda permanecem nas comunidades de Santo Antônio de Lisboa, a vizinha Sambaqui e outras localidades do Norte e Sul da Ilha de Santa Catarina, antiga Nossa Senhora do Desterro.

Relatos: 

Dora Duarte:  O workshop com a Cléo Busatto foi uma experiência boa, um aprendizado para nunca mais esquecer. No campo literário, no quesito contar historia, tem uma gama enorme de truques e ensinamentos. Ela nos trouxe uma parte disso para nos enriquecer o nosso modo próprio de "contar e encantar". Foi muito interessante para mim. Uma gama imensa de ensino sobre a técnica da narrativa. Um aprendizado com duas linhas do meu  raciocínio: a primeira, derruba  quase tudo o que aprendi sobre contação de história. Percebi que sei tão pouco, ou aprendi em 2 anos, somente o básico. Na verdade, quem me ensinou foi uma carga grande de conhecimento e vivência de infância.  Não tive acesso a livros, portanto, captei todas as histórias ouvidas de velhos contadores natos, cujo nome é  conhecido popularmente na minha terra como “Histórias de Trancoso  e também  as minhas próprias histórias de infância. Foi  praticando que descobri o meu jeito próprio de contar.  Segunda linha, é quando a Cléo falou para “contar com o coração”, ler muito, procurar ser fiel a contos alheios, ter seu próprio estilo, ai sim, descobri que estou no caminho certo, porém , quanto mais aprendo, mais enriqueço  e acrescento no pouco que eu sei... Realmente, Cléo Busatto é uma grande mestra na arte de contar e narrar histórias. Obrigada à ela por me passar mais conhecimento.



EVANDRO: Todo processo de aprendizado é uma forma de sair de sua zona de conforto e colocar-se na zona de jogo onde o improviso e o desconhecido pode surgir. Cléo Busatto informa e traz conceitos sobre a arte de narrar e encantar a plateia ouvinte de maneira maestral. Falar de sua experiência pessoal, de sua trajetória de leitora e de sua formação autônoma enquanto leitora, motiva os que a ouvem. Sua narrativa da experiência ao ler Os miseráveis de Victor Hugo e da imersão que fez no universo das personagens, sofrer com a pequena órfã e sentir-se na pele da pequena, provocou em mim o processo de relembrar as várias experiências próprias na trajetória de leitor que se inicia com histórias bíblicas na igreja, passa pela leitura de gibis, avança para as histórias fantásticas da série vaga-lume e mais à frente, com os clássicos da língua portuguesa. A leitura de O ALIENISTA  e a angústia sofrida com o sofrimento do interno que Machado de Assis criou na história. Lembrei de Edna da história de RIACHO DOCE, do autor José Lins do Rego, a encalorada mulher que banha-se nas águas tropicais e vive aventuras amorosas que deixa o leitor apreensivo com o seu perigoso destino. Ao ler Harry Potter e sofrer com a tristeza do jovem bruxo ao ver seu grande amigo bruxo protetor "Dumbledore" morrer à sua frente. Quantos flashes de histórias vieram à mente só do compartilhar de Cléo, que conseguiu provocar a plateia com várias sensações. Falou da importância de ser o narrador ou contador de histórias, primeiramente, um leitor. Deu várias dicas de leitura. As dinâmicas realizadas para envolver os participantes nas ações práticas de ritmo, intenção e outros pontos estudados na explanação teórica foram executadas com maestria. Cléo conseguiu envolver o grande público. Foram dois dias de intenso aprendizado. Valeu muito a pena.
 


APARECIDA: Gostei muito do curso da Cléo. Embora eu ainda não tenha muitas experiências em contação de histórias, mas a impressão que tive e que ela é uma ótima mestra, pés no chão, completamente, acreditando no que faz. Possui segurança. Participarei da segunda parte da oficina, e até lá, tenho certeza que já estarei muito melhor com a ajuda da Claudete. Obrigada às duas mestra!



SAMANTHA: Adorei todos os materiais, mas gostaria de ter adquiridos alguns cd’s e eles não estavam mais disponíveis. De acordo com as orientações da Cléo, todas as histórias possuem um ritmo, cabe ao narrador manter, caso contrário à história se tornará maçante e entediante. Sobre as imagens, preciso visualizar a imagem e cria-la para que o meu público visualize e crie junto comigo, e juntos possamos construir o lugar onde a narrativa acontece. Sobre como tornar o conto o seu conto, sempre coloco um pouco do meu contador ao narrar as histórias. sobre a escolha das histórias, sou uma leitora e narradora de história muito crítica. Pratico a arte de narrar histórias, todos os dias. Posso eleger como autora favorita, a escritora Fanny Abramovich.

Maria Sonia: Que tenha "roda de contação" em cada encontro, como também, reescrita de histórias, análise de algumas histórias, resgate de histórias do lugar, produção de livros e mostra, sarau, varal literário... Ao escolher o que contar, aprendi que precisamos contar com o corpo inteiro, cuidando do aspecto afetivo. Estar atento à qualidade da produção. A história contém cura. O intelocutor é que irá decidir qual aspecto precisou da história. Que para criar o meu arsenal a ser trabalhado preciso agir com intencionalidade e ir à pesquisa. Encontro histórias em cada lugar que conheço. Gosto disso. A história me procura. Como não tenho muitas, são poucas e boas. Ainda tenho que exercitar muito o senso crítico, a questão significante/significado. Acredito que seja falha no meu processo de letramento. Demoro, releio e desconstruo pra entender. Nas minhas leituras, olho as ilustrações, os detalhes e os movimento. Cada quadro pode trazer mais elementos da história. Os ilustradores bons, geralmente acompanham bons autores. Lembrando das orientações da Cléo, sei que as técnicas e os exercícios são indispensáveis na atuação do contador. Sinto que falho. Reescrever a história, recriando o roteiro de imagens, sendo fiel ao autor, são pontos que não esqueço. A narrativa é como cavalgar...o olhar do contador define o movimento, traz o contorno, a forma. Temos que limpar a cena, não pode ter muitos movimentos. A intenção faz o ritmo, dá significado, clareia objetivos, convence, dá qualidade à entonação. Intenção correta, imagem verbal precisa, sonoras e corporais... Como disse Cléo,"contar histórias implica em desenho de cenas no ar!” Foi uma pena, não poder compartilhar histórias numa roda. Saí com vontade de contar. Desejo continuar...

 (Aos poucos, serão inseridos os demais relatos)


Agradecimento:

À Cléo Busatto por estar conosco compartilhando os seus saberes, e pelo carinho no atendimento de minha solicitação.
À Oficina Literária Boca de Leão, pelo seu nascimento e crescimento na companhia de pessoas sábias.
À Diretora da Biblioteca Pública de Santa Catarina, Patrícia Fermino, pelo acolhimento e parceria.
Ao Evandro Jair Duarte pelo companheirismo.

A todos os participantes pela oportunidade de nos reunir e nos unir nestes dois dias trocas de conhecimentos.
Acima de tudo e de todos nós, a Deus por esta grande oportunidade! 
Claudete da Mata


Em 2014, daremos continuidade a este processo, que não parou por aqui!

Dia 15 de agosto, Cléo Busatto chega para o Evento: Contar e Encantar: pequenos segredos da narrativa", atendendo o convite de Claudete da Mata, Coordenadora da Oficina Literária Boca de Leão!"




TRÊS DIAS DE APRENDIZADO!

Dia quinze de agosto, eu e Evandro Jair Duarte fomos buscar Cléo Busatto no aeroporto. Chegamos antes do horário, dando tempo para Evandro almoçar, tomar uma água e voltar para o saguão à espera de nossa mestra. De repente ela chegou com um grande sorriso. Nos abraçamos forte, para matar a saudade.

Em seguida, os meninos nos deixaram no hotel. Liguei para Saray, mas também não deu para ela nos acompanhar. O jeito foi seguir rumo a Santo Antônio de Lisboa. Cléo estava louca por ostras. O taxista nos deixou num restaurante onde tem as melhores ostras da Ilha de SC: Delícia!

Nos sentamos de frente para o mar. Uma paisagem inesquecível!

Degustamos, além das ostras deliciosas, pastel de camarão e uma caldeirada de lamber os beiços. Tinha lula, camarão, marisco, peixe... Tudo muito delicioso!


Estas são as ostras mais saborosas do norte da Ilha de Santa Catarina.


Depois do pastel de fazer água na boca, fomos à igreja fazer os nossos agradecimento a Santo Antônio. Nasci no seu dia, numa sexta-feira de Lua Cheia, às 22h. Nessa noite, muitas mulheres fizeram os seus pedidos ao santo "casamenteiro". Creio que tem gente esperando até hoje pelo atendimento de seus desejos. Isso me faz lembrar, que, mesmo nascendo no dia de Santo Antônio, nunca pedi a ele um marido, nem o afoguei em copo com água, nem em recipiente com farinha de mandioca, como fazem muitas mulheres até hoje. E não é que casei! Lembro que muitas colegas, até os dias atuais, pedem para eu benzê-las no dia de meu aniversário. Teve uma que, meses depois de ser benzida, casou com um viúvo rico. Entrar naquela igreja, mexeu com os fios de minha memória.



Saímos da igreja, registramos momentos inesquecíveis, desses que somente pessoas de sentimentos verdadeiros, conseguem ver e sentir.

Momentos importantes, viram histórias assim como esta pequenina vila, ainda preservada pelos moradores nativos da Ilha da magia, com suas bruxas e lobisomens rondando as suas casas, nas caladas da noite...
 Suas praias graciosas, a nos convidar para um mergulho nas suas águas calmas.


 
Depois dos agradecimentos a Santo Antônio, outra parada para degustar mais um dos sabores, desta vez, levados para Santo Antônio de Lisboa, Norte da Ilha; petit gateau, segundo Cléo: "Uma delícia"!


Entre tantas, havia muitos corações repletos de mensagens, uma tradição dos nativos da Grande Florianópolis, chamada Pão por Deus, enviados para quem gostamos ou quem desejamos namorar... Os antigos moradores ainda mantem esta tradição, nas suas festas culturais.

No restaurante haviam corações de argila e de feltro, espalhados pelas paredes e pendurados no teto. O banheiro, de tão interessante, acabei fotografando tudo o que consegui capturar. 

 A pia feita com o chamado "arguidá", um grande prato de barro. Havia de quase tudo um pouco, tanto que minha demora foi grande. Quem percebeu, certamente pensou: O que ela tanto faz lá dentro?

Não é um banheiro criativo? Veja o puxador da porta...
E para nos despedir desse tarde inesquecível, Cléo fotografou a paisagem desenhada com a chegada da noite, ainda com o Astro Rei mostrando o seu colorido lá dos confins do mundo.
Na beira da praia, um casal namorando à moda antiga, aconchegados no banquinho da praia, sob o tranquilo som das ondas do mar, de onde puderam contemplar a bela paisagem, unindo dois momentos lindos...
Como tudo na vida tem início, meio e fim, era hora de voltar com uma sacola cheia de histórias. No caminho, Cléo lembrou do celular que havia deixado no restaurante, quando retornamos a pé. Depois seguimos o nosso caminho. Afinal, no dia seguinte, um público estaria à espera de Cléo.

Dia 16 de agosto, o tão esperado dia - Cléo abre o Evento com sua voz de "fada", após narrar o Conto "Origem do Fogo"!


AGOSTO, MÊS DO FOLCLORE BRASILEIRO!